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Primeiros Erros
E ela ligou para me saber onde estava, que já havia descido. Chovia. Eu tinha acabado de falar contigo. Começou a tocar "Primeiros Erros" no rádio e chovia. Abri a porta do carro, ela entrou e eu a beijei. Não falamos nada por uns quinze segundos, mas o carro dizia que mais de vinte minutos haviam se passado quando ela então pediu para que eu falasse alguma coisa. Falei pouco aquilo que havia lhe dito antes, no calor da noite de inverno: que as palavras não me ajudavam agora. No frio inédito, a chuva trazia desastres de carros pelas ruas, mas meu espírito estava todo em sua boca, as cores já não faziam diferença. Era isso. Não tiro fotos, muito menos do invisível. Mas eu escrevo. Por acidente, eu escrevo. Queria dividir uma visão contigo, sem câmeras, sem idéias.
Hoje saio com ela pela última noite e, amanhã, pára de chover. Das brasas que, longe dali, se apagaram sob a chuva, ninguém pode dizer o que será.
Escrito por nihil às 00h47
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Soneto - Desequilíbrio
Como se fossem pequenas, Todas as danças cabem nos Retratos nas paredes desenhados Nas casas dos fidalgos.
E as palmeiras navegantes Olham incólumes os beijos Que desvirtuam a ordem Do acaso e ignorância.
A causalidade traz o crime E as chuvas lavam, levam, Louvam como sangue o desprezo.
O desequilíbrio nos faz sorrir Mas um dia nos arrancará os dentes, As lembranças e até mesmo a alma.
Escrito por nihil às 15h16
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Glooming willows past, the nightly Eerie shadows cast, dreamt she standing Impossible dreams, of all such mighty Conceptual seams, fantasies neverending.
Unwoven, aghast, the child girl feeling For a moment at last, what ideas fiercely Colliding means. That all paint's peeling So as to cleanse, to grow up finally.
But was it so fast, that she would discover A dream is not over, it was just beginning. A field so vast, his voice came fleeting, For her not to cover, to wither, to chast.
For the World is in the end Fantasy Not so real, not so definite, definitely.
Escrito por nihil às 06h46
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Evocação e Corpo O que era para ser mais que uma tarde Ou um dia inteiro Uma ininterrupta fila de perguntas de desejos de pedidos de sorrisos de anseios de sonhos escritos em pedacinhos pequenos de papel timbrado em cores ligadas como numa progressão continua e disforme se misturam como numa epifania da tarde
Entre o sussurro das paredes que me guiam às mudanças sutis de desenhos que acompanham os limites da alma envolta em insano puritanismo falso Mas que nada se esconde dado a intensidade e vai caminhando entre as respirações inconstantes Pausando a fala e só então dizendo que continua
transformando linhas brancas em tentativas de concentração fúteis que me escapassem à percepção mais básica de como é belo o que te envolve para que pudesse saborear o que preenche e desse esses pontos, apoios, toques... Enfim, corpo.
Escrito por nihil às 02h15
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A Outra Voz.
Pessoas cujo peso, deitadas sobre nós, É o que nos lembra que provamos Da Existência e de tudo que é bom e do errado, As que cujos abraços apertados Nos dizem e carregam a presença E nos prendem então ao mundo Do calor insuportável imprescindível Com que aquecem mais lídimos delírios; Os anseios e a vontade de ver o sol Sem se importar com o incômodo do corpo, O cansaço e dor das mãos fechadas Que nos asseguram de que temos um ao outro.
É difícil explicar para as pessoas Que quente não é a coberta, mas sim o sangue Desperto em ira, desejo, carinho, palavras, Medos e aquele som único da outra voz.
Escrito por nihil às 21h55
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Doces
É a insegurança que nasce Das folhas das árvores, Dos recortes do chão, Dos toques das roupas, Dos poemas sem título, Que nos leva a escrever E vestir e plantar E deixar nascer Uma nova vontade.
E se um dia chegar Que for diferente Que seja igual mas que pense que é, que não é, Mas que pense na gente Que fale de andar E voar e correr Por sobrepostas metáforas De puros sabores.
Sabores banhados Por tinturas alegres E tristes preparados Das águas dos mares, Dos olhos salgados, Das bocas perdidas Que falam caladas Por línguas não ditas O que esperamos ouvir:
Que nos doces guardados, nos momentos de sol, perdemos as mágoas, os sentidos, olhares, e os significados das casas e notas para viver de verdades, saudades e medos, que nos dão existir.
Escrito por nihil às 05h23
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A Teocracia
Ouviu três de seus últimos cinco passos enquanto se aproximava de seu carro preto, eles ecoavam pelas paredes dos prédios da noite, silenciosos. Não havia ainda sequer olhado para esquerda ou para direita, mas recebeu logo sua imagem refletida no vidro com certo susto... como estava cansado! O rosto que olhava lhe parecia com, diria, uns 52 anos a mais que seus 23, mal vividos numa cidade, dessas bem grandes, que nos faz passar por tudo, menos felicidade. Que tinha sido um dia longo estava certo, e pensava: quem dera poder dormir ali mesmo, com os mendigos, nem que passassem frio, dias e pensamentos.
Mas ainda sabia que precisava chegar em casa logo, porque tinha de cuidar de sua pequena filha, loura como a mãe. Deixara ela com seus pais, para que pudesse ouvir um Glazunov. Não que gostasse, na verdade, jamais admitiria, mas detestava, achava-o linear, “horizontal”. Preferiria um Dvorak, ou ainda um Wagner, todos dela. Assistia por um pouco mais que a lembrança, apenas, mas para que ao menos esse pouco fosse capaz de trazer para a filha a mãe que esta não mais teria. Ou, ao menos, era assim que para si próprio mentia. Sua eterna amiga (ainda que odiasse rótulos) recusara-lhe novamente o convite, lhe deixando com seus vazios na sala, e ainda se distanciava, tendo-se desgastado o relacionamento que durou pouco mais que quatro anos de mentira, para ele. Ainda sim, a filha precisava de uma mãe. Ou era ele?
Lembrou-se de pequena mulher. Uma menina dos convites, anjos e demônios, das explicações e dos choros, dos cabelos e seios de verdade, e amores de mentira, das palavras que estão apenas nos livros, enfim, patética. Lembrou-se de todas elas. Sim, porque eram várias, e nunca ninguém entendera, e, quando ele iria conseguir, acabou-lhe o tempo, e uma janela colheu a vida da mãe de sua filha. Sentia saudades, decerto, não dela, mas de si mesmo, de poder ser ele mesmo, completo, porque era egoísta. Egoísta? Bom, digo, eram os dois, pois a primeira ainda lhe deixara uma filha... e não reclamo por cuidá-la, mas sim pela lembrança, que é mais cruel com ele. Ainda tivesse partido antes que isso acontecesse! Para falar a verdade, se é que isso existe, nem ele era tão ruim desse modo, era apenas ingênuo e infantil.
Ainda sim, ceticamente pensando, seria melhor assim, ao menos para a menina, que não conheceria a mãe. E pensou então que assim tivesse resolvido todo o problema do mundo: ninguém mais conheceria os pais! E esses jamais poderiam ser considerados omissos, ou decepcionarem seus filhos. Logo contaria para sua amiga. Pena que estava só, e ninguém jamais ouviria essa teoria.
Tentou lembrar-lhe o dia que o fizera tão cansado. As estrelas resistiram em aparecer e ele sabia que ninguém dorme na cidade. Acordou, apesar do sono, ainda imaginativo, sonhador, como sempre o era antes das definições. Ficava imaginando a eterna “amiga” aceitando o convite para a noite, e seu mudo de contos de fadas que se seguia. Ele era ainda muito criativo, ou ao menos vivia suas imaginações de maneira quase esquizofrênica, conversava e até gesticulava com elas, olhava para o lado para se amigar consigo mesmo, porque não aceitava esse mundo idiota que o tinha. Mas que importa? Ele teria sua mãe, e a daria para sua filha, que nada tinha a ver com a estória, nem existia nela, senão como um ajuste pequeno à realidade. Via a pequenina como a perpetuação cruel da pequena mulher, queria livrar-se de um mal em si nunca cometido, cortaria um braço se fosse um tumor, mas não se pode cortar um pedaço da alma, tanto menos alma toda. Amava a filha como a si próprio. E sabia que sua amiga jamais lhe daria um mundo inteiro para sonhar, e que seu sonho era estúpido como qualquer outro mas como poderia saber? Não desse saber como quando se sabe uma ciência, de olhos fechados, mas sentindo, tocando. Pensando bem, detestava saber.
Recebeu a decepção encomendada num embrulho, um pacote preto, um telefone celular que tocou em hora errada, porta errada. E o seu mundo imaginário, medíocre que só, caiu feito saco frágil de farinha, cobrindo-o de um ar ridículo. Esperou pela sinfônica como se fosse a última, parado em casa, acompanhado apenas pela filha, que mal falava, mas já o faria lembrar da pequena menina que também mal falava mas lhe dizia tudo. Chegou ao teatro e chorou como um ator barato desses filmes que passam na televisão quando essa não tem o que mostrar ou quem veja, e pôs-se a ouvir o russo copiar, preconceituoso como sempre, e detestou. Perdeu todo o seu tempo, e tinha pouco. Ao sair, deu cinco passos em direção ao carro, mas só ouviu três, não tinha ainda olhado nem para a esquerda, nem para a direita. E morreu.
Escrito por nihil às 01h33
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Soneto - Desfeito
A falta que me fazes quando deito, Está comigo até quando levanto Depois de sonhar contigo, teu encanto, E carregar essa eterna dor no peito.
Não sei como de ti, tudo eu aceito, Mas sei mais de teu valor portanto. E se te levo em mim a todo canto Mais te preciso a toda hora, todo jeito.
Faze-me sempre tão criança que enfeito Meu pensar em ti do mais puro acalanto. Ah, que falta que me fazes quando deito!
Como posso eu segurar motivado pranto? Estás comigo até quando levanto! E sempre sem ti, faze-me desfeito.
Escrito por nihil às 04h17
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Passarinha no alto da árvore, dourados e pretos e d'olhos azuis. De asas gigantes, não sabe voar. Ela canta, e canta que é minha, que é minha, mas minha não é. Das vozes distante, ela canta Docinha, docinha, enquanto prepara um derrame de cores, de tintas, de vermelho das novas, de branco das peles, de cinzas dos medos, e verdes os frutos Que tem pra colher. No alto da árvore ela canta e canta, que é minha e não é e se esconde à noitinha, se fazendo pequena de nome e de corpo e mal sabe quão grande já é. Passarinha não voa ainda - ela canta , ela canta - tem medo e sonha e finge e mente que é menos que é.
Escrito por nihil às 02h21
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